sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Memórias


A propósito de um convite que aqui me foi deixado e eu aceitei, para ouvir Concerto para violino em mi menor, opus 64 do compositor Mendelssohn, que completou 200 anos no passado dia 3, lembrei-me do meu avô.
O meu avô materno foi, mais ou menos, o único avô que eu tive. Ele era o patriarca da família. Nasceu em 1910, era da República, como costumava dizer e … foi professor.
O meu avô António tinha 11 netos e havia sempre alguns a morar lá em casa. Levava-nos todos os dias a passear a algum lado quando a gasolina era a 4 escudos e, a meio da viagem parávamos para lanchar, sempre em confeitarias de nome, onde nos traziam um pratinho cheio de pastéis deliciosos. Só comíamos os que queríamos, os outros iam para trás.
Na sua sala de aula tinha 80 alunos que ensinava de manhã à noite, sábados incluídos; na sua escola havia cantina onde meninos pobres podiam comer sopa todos os dias; havia biblioteca com livros de histórias que eu folheei e me ensinaram a ler sozinha… percorreu a cavalo as escolas da serra para fazer os exames da 4º classe dos seus colegas mais distantes; e ganhava 300 escudos.
O meu avô tinha um moinho de água onde punha baterias a carregar para poder ouvir a BBC na telefonia, às escondidas ou tinha problemas; sabia tudo sobre como fazer vinhos verdes; comprou a primeira televisão dos arredores logo que elas apareceram e colocou-a na garagem onde todos podiam ir assistir e dar um tostão até ela estar paga; tinha sempre um carro novo e bonito que desmontava para ver como era feito; fazia milhares de fotografias e slides que revelava numa máquina inventada por ele; lia dicionários e chamava-nos incultos porque não sabíamos a derivações das palavras; tinha sempre histórias para nos contar.
E tocava viola e violino.
Eu sei que íamos à escola, mas não sei quando, porque do que eu me lembro é só do tempo em que estávamos com ele. Era como se fosse sempre tempo de férias.
O meu avô não chegou a saber o que é a ASAE; o meu avô não acreditaria se lhe dissessem que ia pagar a gasolina a 250 escudos; nunca acharia possível que um aluno ousasse desrespeitar o professor, quanto mais que lhe batesse.
O meu avô nunca precisou de ser avaliado.
Ensinou-me tantas coisas que resumo numa só: tudo o que sei sobre respeito, dignidade e lealdade.
Só há duas coisas de que o culpo: não me obrigou a aprender a tocar violino, e manipulou-me para também eu ser professora….

PS: Mas isto já foi no século passado, não há mais avôs assim.

4 comentários:

Ai meu Deus disse...

Que (riqueza de) Mundo!

(O pormenor do moinho então... o universo dos moinhos é um reino de uma riqueza que, receio, se perderá definitivamente, não tarda. Andei anos a pensar fotografar os restos de alguns, nas vizinhanças da aldeia onde vim ao mundo... e deixei-lhes cair todas as pedras sem fazer o registo).

Obrigado.

Nuno Medon disse...

Olá! O seu avô foi uma pessoa muito interessante! O meu avô materno nasceu em 1908. Sinto saudades do meu Avô, tal e qual como sente saudades do seu Avô. Lindas lembranças que partilhou com os leitores. beijos e continuação de um bom fim de semana!

EMD disse...

Gostei tanto do texto (homenagem) que nem fui capaz de teclar palavra, nas primeiras vezes que o li.
Eu também tive um avô (o único) assim, com quem um bando de netos lanchava um pratada de bolos, no regresso das visitas aos museus, aos jardins e a outros lugares emblemáticos da cidade grande. Também foi com ele que ouvimos as primeiras peças de música clássica e discutimos o estado da nação salazarenta.
Que saudade!
bfs

Anabela Magalhães disse...

Parabéns pelo texto, Tiza! Acho que toda a gente saiu daqui a pensar nos seus svós...
Saudades!